Marlon Titre - Março de 2006

Marlon TitreENTREVISTA: Marlon Titre
Por Ericsson Castro e Andrea Paz

Marlon Titre (Aruba 1982) é formado em violão clássico e composição pelo Royal Conservatory in The Hague, na Holanda. Durante os seus estudos, teve aulas com Zoran Dukic, Enno Voorhorst e Ocker Toetenel, e aulas de composição com Roderik de Man e Martijn Padding. As composições de Marlon foi tocada em várias orquestras e grupos de câmara em programações no rádio e na televisão. Para obter mais informações sobre este violonista acesse www.marlontitre.com, depois de ler a entrevista abaixo, claro!


Oi Marlon. Poderia nos contar como surgiu o seu interesse pela música e, conseqüentemente, pelo violão? E você poderia nos falar sobre a tradição musical da região onde você nasceu?

Meu pai e meu avô costumavam tocar violão, então sempre havia música de violão em casa. Por volta dos 9 anos eu comecei a ter aulas na escola de música de Pijnacker, cidade onde eu morava. Isso foi ainda na Holanda. Eu nasci em Aruba, mas me mudei para a Holanda quando ainda era muito jovem. As Antilhas Holandesas e a Holanda juntas compõe o Reino da Holanda, então os laços com o Caribe ainda podem ser vistos aqui na Holanda e existe uma grande comunidade caribenha.
A música de Aruba (e Curaçau, a ilha vizinha) definitivamente tem sua sonoridade própria. Existe a música tradicional, como o Tambú, que é tocada com cantores e percussão, e é muito rápida. A versão popular mais instrumental se chama Tumba. Estas são as duas formas mais típicas de música em Aruba e Curaçau. Num contexto instrumental, tocam-se muitas Valsas, Danças e Mazurcas. Frequentemente o violão é utilizado, como também o cuatro, que se chama cuarta.

Quais professores se destacaram durante o seu aprendizado e o que você considera que aprendeu de mais importante com cada um deles?

Marlon TitreAos 13 anos eu comecei a ter aulas na classe preparatória do Royal Conservatory, em Den Haag, com Ocker Toetenel. Estudei com ele durante 5 anos e aprendi a apreciar quase todos os estilos de música. Ele veio com todos os tipos e nunca baseou sua opinião no fato de simplesmente gostar ou não do estilo de música.

Depois eu estudei por 3 anos com Enno Voorhorst, que é o principal violonista holandês além de um grande professor. Com ele eu aprendi muito sobre expressão, como fazer uma boa digitação, técnica e performance.
Agora estou estudando com Zoran Dukic, que é simplesmente fantástico. Ele é um grande concertista e está tocando o tempo todo, em todo lugar do mundo. Com ele tenho aprendido muito sobre sonoridade, fraseados e muitas outras coisas. Zoran pode ensinar qualquer coisa sobre violão, ele é um perito.

Você também compõe. Como surgiu o seu interesse pela composição?

Eu me interessei em compor muito cedo, eu sempre quis tocar minhas próprias peças e ouvir música que eu nunca ouvi antes sempre me inspirou a escrever coisas novas. Daí eu entrei nas "composições sérias", que é como eles chamam, e vi que é um mundo interessante. Eu me formei há dois anos. Hoje eu me foco mais em tocar do que compor.

Qual violão você tem usado ultimamente em seus recitais? Ele tem alguma característica que te agrada mais?

Agora estou tocando em um violão Yuichi Imai 2006 de cedro. Até recentemente eu usava um violão Imai 1995 de pinho. Gosto muito dos violões de Imai, eles têm um som que acho muito confortável de trabalhar. É como se uma qualidade extra fossa colocada em cada nota quando você toca.

O que você pode dizer a respeito do repertório que está tocando ultimamente? Algum comentário especial sobre alguma obra?

No momento estou tocando somente peças que acho muito interessantes, como Due Canzoni Lidie de Nuccio D'Angelo e Estudo Percussivo do Artur Kampela. Nos concertos eu também toco peças de Albeniz, sonata do Tedesco, Telemann, Mertz, Lauro. Eu costumava tocar muitas músicas dos compositores do século 20, como Sequenza de Luciano Berio e a Sonata de Richard Rodney Bennett. Agora eu só toco essas peças em ocasiões especiais, quando a platéia realmente gosta de música contemporânea.

Quais são seus planos para o futuro?

Este ano eu tenho muitos concertos da competição de Alessandria, da qual eu gosto muito. É uma grande experiência apresentar-se tanto. Espero que nos próximos anos eu possa continuar tocando desta forma e possa trazer um bom repertório para a platéia.



Um recital de violão que te marcou?

Pavel Steidl em 2002, tocando Legnani, Paganini, Bach e peças próprias. Eu fiquei até sem ar, foi um concerto inacreditável, lindo.

Qual obra, ao ouví-la, te levou a pensar "gostaria de ter composto isso"?

Eu realmente não tenho isso com peças, mas com as emoções a que uma peça pode levar. Há muitas performances de Miles Davis que são carregadas emocionalmente de uma forma muito complexa. Dos compositores clássicos, Bach, Schubert e Beethoven também têm isso. A tensão dramática de muitos dos seus trabalhos é realmente muito inspiradora para interpretar, acho. Fico feliz de eles terem composto essas peças, pois assim nós podemos admirá-los.

Existe algo pior que corda que não afina?

Qualquer violonista dirá: cordas novas... violão desafinado! Isso é o pior!

Um sonho ainda não realizado?

Férias no Brasil! Acho que o Brasil tem uma cultura musical muito interessante e gostaria de descobrir mais sobre ela.

Algum conselho aos leitores deste site que algum dia pretendem ser bons músicos?

Eu diria: toquem aquilo que vocês mais gostam e tenham paixão por tudo o que fazem. Acho que isso vale para tudo, música ou outras coisas da vida.